quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Cristiano de Abreu: Avalanche de realidade afunda a extrema direita - é hora da esquerda coordenar a narrativa política

O Titanic da extrema direita afunda a olhos vistos, e neste momento de retumbante fracasso político deste campo, as guerras narrativas surgem como deslizamento: na derrota, os responsáveis por ela, culpam a falta de “radicalidade” do grupo, como os militares japoneses que após Hiroshima escreviam que faltou um “segundo” bombardeio a Pearl Harbour, ou os liberais argentinos do Plano Cavallo, que reclamavam que não teriam “liberalizado” o bastante a Argentina, antes da crise do argentinazo de 2001.  As guerras narrativas seguirão, e o nonsenso não terá limites: preparem-se! Mas o absurdo precisa ser explicitado, pois o mundo é, cada vez mais, uma realidade complexa, e noções mínimas de compreensões dos vetores econômicos, sociais, materiais, dessa realidade, precisam ser entendidas para a construção de uma visão minimamente realista. Pois é exatamente contra esse estudo mínimo para se entender a realidade, que essa extrema direita dedica toda sua fúria odiosa contra qualquer noção de verdade. E o decadente cantor em questão não é um pato cego isolado: há muitos nessa condição. 

Na verdade, o colapso da realidade para essa extrema direita, vem da avalanche de realidade hoje sobre sua narrativa fantasiosa. E nesse wishful thinking, encantado e mítico, o dito cantor não está só: vários escritórios da Faria Lima apostaram contra o Real a maior parte de 2025, TODAS as agências de previsibilidade econômica apostaram desbragadamente contra o governo brasileiro, desde 2023, para não falar da aposta dessa extrema direita em arrancar do governo Trump sanções econômicas sem fim contra o Brasil: haja visto a aposta demente de um deputado, Eduardo Bolsonaro, em se mudar para os EUA para lutar por ataques (até militares!!! O que é ALTA TRAIÇÃO À PÁTRIA!!!!) e sanções contra o país que paga (SEMPRE PAGOU) seu salário...  Mas todas essas apostas bizarras saíram pela culatra, e hoje o Sol da realidade derrete o castelo de mentiras que fundamenta a cabeça dessa gente. 

Lembro uma vez conversando com uma amiga médica (nada de extrema direita), e demonstrava a ela que o PT pegou o Brasil em 2003 como a 14° economia do mundo, e a entregou em 6° colocação em 2010, pagou a dívida externa (nacionalizou-a), de como tudo melhorou para todos, nos governos do PT.... E ouvi a resposta: “você sabe que não é isso que as pessoas falam.” Pois é, as pessoas (imensa parte delas...) não se pautam pela realidade, mas por subjetividades manipuladas pelas redes, pelas mídias, que têm lado! Logo, no mínimo sinal de ruído, “os problemas” de qualquer governo popular viram crises terminais (haja visto o que fizeram com a honesta Dilma!), enquanto governantes corruptos e ineptos podem deixar milhões sem água e luz, que NADA lhes atinge (vide: Tarcísio e Nunes em SP...), pois são blindados por essa narrativa fantasmagórica.

<><> Política com História: RELEMBRAR É DAR SENTIDO AO PRESENTE!

As mentiras dessa extrema direita estão agora nuas sob o Sol, onde morrem como vampiros sob a luz solar. Mas as pessoas, nas redes, vivem em presentes constantes, que lhes retiram qualquer dimensão de continuidade histórica, de construção sistêmica: a mídia, e as redes sociais, assim fazem loucamente com todos, mas essas mesmas pessoas estão sufocadas por esse presente amnésico! É preciso que as forças populares façam suas campanhas com uma boa dose de história!!!! RELEMBRAR É DAR SENTIDO! E as pessoas estão precisando desse sentido, para ver o gelo do ódio, e da burrice, dessa extrema direita derreter ao Sol.   O momento de iluminação é uma felicidade, que não pode ser desperdiçada: o Brasil ganhou a nomeação das Olimpíadas e Copa, encontrou o petróleo do Pré-Sal, numa onda de alegria entre 2008/2010... Mas este solar momento foi violentado na sequência. Hoje abre-se uma janela de diálogo, uma vez que o outro lado não tem argumentos nem para soluçar, e a forma de transformar esse derretimento da extrema direita numa janela de diálogo com o centro expandido, é forçar a aceitação de ARGUMENTOS FACTUAIS. Não dá para discutir com “eu acho” sobre temas que já têm um acúmulo de argumentação racional. A sra Patrícia Abravanel respondeu, ao ato de fidelidade do cantor com o campo político em decomposição que ele segue defendendo, com sua racionalidade econômica: meu pai me ensinou a articular com todos os governos... Ponto! Mas a esquerda precisa da história neste momento: o Silvio Santos foi apoiador do golpe de 2016 e do Temer sim! Em quadros até em que a senilidade física do empresário/apresentador se imiscuía com a podridão do momento golpista de forma bizarra... até curiosa. Agora a herdeira, nascida em berço de ouro, segue fiel ao caminho vitorioso, pouco importa opiniões pessoais, enquanto o cantor que nasceu pobre e enriqueceu, segue fiel ao campo político que chuta a escada da melhora econômica aos outros pobres, que ele como vindo da pobreza, tanto odeia... O auto ódio dele é constrangedor.

Neste momento de confusão na direita, que a esquerda seja fiel e ao mesmo tempo pragmática: neste colapso narrativo da extrema direita, é preciso que o campo progressista imponha os campos do debate político aceitável:

- Defender sanções, e ATÉ INTERVENÇÕES MILITARES de potência estrangeira no Brasil É CRIME DE ALTA TRAIÇÃO, NÃO É ACEITÁVEL;

-Defender legislar por interesses setoriais, para gerar anistia sonsa aos golpistas, e assim permitir minoração de penas aleatórias a quem quer que seja, NÃO É ACEITÁVEL;

-Fazer campanha contra a instituição STF, e defender punições aleatórias e pessoais a ministros que trabalham dentro dos marcos da defesa da Constituição (que é a obrigação dos ministros do STF!), NÃO É ACEITÁVEL;

- Atacar INSTITUIÇÕES BRASILEIRAS NÃO É ACEITÁVEL;

-Atacar a economia nacional (como foi feita pela lava-jato) NÃO É ACEITÁVEL.

É preciso que o campo progressista faça uma ampla campanha de educação política, trazendo todas as forças que querem participar, para dentro de um quadro de racionalidade operacional que determina o que é aceitável e o que não é.  É preciso criar as bases de uma campanha para um Congresso sintonizado com o Povo, logo, com um patriotismo popular mínimo, coisa que a extrema direita bolsonarista comprovou não ter de forma alguma: a camisa da seleção para eles é a senha para lutar contra o próprio país, como o cantorzinho sertanejo que, desafinado com sua história de vida, tem nojo de sua própria origem, de seu passado, de si mesmo... O auto ódio contra o Brasil da extrema direita tem que ser RADICALMENTE EXPLORADO PELA ESQUERDA: no Brasil só é patriota quem é do campo progressista. Ponto!

<><> Campanha de 2026: educação política com História, Instituições, e patriotismo popular, contra a loucura suicidária dos amnésicos impatriotas da extrema direita

Os progressistas do Brasil necessitam reverter, e minimizar, o quadro de loucura que a extrema direita escancarou desde 2013, e para isso é preciso definir o que é inaceitável. E o ponto mais central e evidente é o do impatriotismo rastejante dos Bolsonaros: que vendem suas candidaturas, seus mandatos, seu país... É preciso impor limites ao que é aceitável politicamente, e dialogar com o bom senso popular, usando a HISTÓRIA. Sair da matrix do golpe é defender instituições, e qualquer um que estude o Institucionalismo sabe que não há respeito às Instituições sem conhecimento histórico.  O Judiciário é uma instituição fundamental.

O PT é a maior instituição político partidária do quadro político brasileiro, e precisa ser respeitado, nunca difamado! O Partido Comunista é uma instituição mais que centenária no Brasil, que está na base do SUS, do direito à liberdade de culto, e de tantas conquistas civilizatórias do Brasil: tem que ser respeitado! Eis aqui um singelo, e pragmático, plano para os progressistas pegarem a régua e o compasso do momento político, para uma campanha popular: trabalhar pela educação política, pegando para a esquerda as bandeiras do INSTITUCIONALISMO e do PATRIOTISMO, pelo uso da HISTÓRIA. 

Os políticos que querem reinventar a roda todo ano, estão apenas atrasando o progresso do Povo, que já tem muita luta acumulada para perder tempo com revoltadinhos sem memória: a amnésia coletiva, que mídia e as redes digitais das Big Tech difundem, e a extrema direita vocaliza no Congresso, é um instrumento de deseducação, de antipolítica, que os progressistas precisamos rebater, e destruir com a HISTÓRIA. RELEMBRAR É DAR SENTIDO ao PRESENTE, e LIBERTAR O POVO DA PRISÃO DA AMNÉSIA HISTÓRICA!  SÓ PODE ESTAR NO CONGRESSO QUEM RELEMBRA NOSSA HISTÓRIA NACIONAL, E HONRA SEUS DESDOBRAMENTOS: UM CONGRESSO DO POVO É FEITO POR PARLAMENTARES QUE RECONHECEM A HISTÓRIA DE LUTAS DESSE POVO. 

¨      Geopolítica, extrema direita e a crise da ordem internacional. Por  Maria Luiza Falcão

O ano de 2025 se encerrou sem síntese e sem alívio. Não há resoluções, apenas adiamentos; não há estabilidade, apenas contenção provisória do caos. O mundo chega ao fim do ano em estado de suspensão permanente, marcado por conflitos não resolvidos, instituições enfraquecidas e uma reorganização profunda e perigosa do poder global. A ilusão de normalidade é mantida à custa de exceções contínuas. O sistema internacional já não funciona como ordem: funciona como improvisação.

<><> A ascensão da direita e a corrosão deliberada da democracia

O avanço das direitas radicais e autoritárias consolida-se como um dos traços mais inquietantes de 2025. Trata-se de um fenômeno global, com variações nacionais, mas com um núcleo comum: desprezo pelas instituições democráticas, ataque sistemático à imprensa, às universidades e à ciência, criminalização de minorias e recusa explícita do pluralismo político. Na América do Sul, esse movimento assume contornos particularmente regressivos. A experiência argentina sob Javier Milei, o avanço da extrema direita no Chile, a persistência do bolsonarismo no Brasil e a instabilidade política crônica em outros países da região revelam uma direita que já não busca governar dentro da democracia liberal, mas tensioná-la até seus limites. Explora frustrações reais — estagnação, insegurança, desigualdade —, mas oferece como resposta o autoritarismo, o desmonte do Estado e a submissão irrestrita ao mercado financeiro. Não há projeto nacional nem estratégia de desenvolvimento. 

<><> Conflitos administrados, violência normalizada

Os grandes conflitos de 2025 não caminham para a paz; caminham para a normalização. A guerra na Ucrânia permanece num impasse destrutivo, sustentado por cálculos geopolíticos que já pouco dialogam com qualquer horizonte de reconstrução. O Oriente Médio segue em combustão lenta, com crises humanitárias recorrentes, direito internacional seletivo e a banalização da morte civil de populações inteiras. O traço comum é claro: os conflitos não são resolvidos porque resolvê-los exigiria mediação, instituições eficazes e compromisso político internacional — exatamente o que falta. A guerra torna-se administrável, e o sofrimento, estatística.

<><> Estados Unidos sob Trump: poder sem liderança

O retorno de Donald Trump à Casa Branca acelera o declínio qualitativo da hegemonia norte-americana. Os Estados Unidos seguem sendo uma potência central, mas já não exercem liderança estabilizadora. O unilateralismo, o desprezo por alianças históricas, o ataque a organismos multilaterais e a instrumentalização da política externa para consumo doméstico corroem a credibilidade do país. A doutrina “America First”, agora mais agressiva, produz um efeito paradoxal: ao tentar reafirmar poder, Washington enfraquece as bases da ordem que sustentou sua própria centralidade desde 1945. O resultado é um mundo mais inseguro, mais fragmentado e menos disposto a seguir qualquer liderança vinda de um país que já não respeita as regras que criou.

<><> Europa: relevância sem direção

A Europa encerra 2025 politicamente frágil e estrategicamente desnorteada. Pressionada por baixo crescimento, conflitos sociais, crise migratória e avanço da extrema direita, a União Europeia revela dificuldades crescentes para agir como ator geopolítico autônomo. A dependência militar, a hesitação diplomática e a incapacidade de formular respostas coordenadas aos desafios tecnológicos e produtivos expõem um continente que reage aos acontecimentos, mas já não os molda. A Europa permanece relevante, mas seu peso político não acompanha sua memória histórica.

<><> China: estabilidade como ativo geopolítico

Em contraste com a instabilidade ocidental, a China encerra 2025 avançando de forma silenciosa, planejada e estratégica. O fortalecimento do mercado interno, o investimento contínuo em inovação, a reorganização das cadeias produtivas e a ampliação de sua presença diplomática no Sul Global consolidam sua posição como pilar central da nova configuração internacional. A China não se apresenta como salvadora da ordem global, mas como potência previsível num mundo imprevisível. Em um sistema internacional marcado por improviso, a capacidade de planejar se tornou poder.

<><> O colapso funcional das instituições multilaterais

Talvez o sinal mais grave do encerramento de 2025 seja o esvaziamento prático das instituições multilaterais. A Organização das Nações Unidas mostra-se incapaz de conter conflitos ou impor o direito internacional de forma consistente. O Conselho de Segurança opera paralisado, refém de vetos e seletividades políticas. O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial seguem ativos, mas cada vez mais distantes das necessidades reais do desenvolvimento, presos a condicionalidades que perderam legitimidade e eficácia. A Organização Mundial do Comércio permanece praticamente imobilizada, incapaz de arbitrar disputas num mundo em que o comércio foi capturado pela lógica da segurança nacional. Essas instituições não colapsaram formalmente, mas funcionam abaixo do limiar histórico para o qual foram criadas. O multilateralismo sobrevive mais como retórica do que como instrumento real de governança.

<><> Um mundo multipolar sem árbitro — e sem consenso

O saldo de 2025 é inequívoco: o mundo tornou-se multipolar, mas sem mecanismos de coordenação compatíveis com essa realidade. A hegemonia norte-americana enfraquece sem ser substituída; a Europa hesita; a China avança; potências regionais testam limites; e a extrema direita ocupa o vazio político deixado pela crise do liberalismo. Nesse contexto, a democracia deixa de ser um terreno minimamente compartilhado e passa a ser objeto de disputa aberta. Já não há acordo básico sobre regras do jogo, limites institucionais ou sobre o papel do Estado na mediação de conflitos sociais. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento deixa de ser tratado como um problema técnico, resolvível por ajustes macroeconômicos ou fórmulas padronizadas, e volta a ser uma questão eminentemente política. Decidir como crescer, quem se beneficia do crescimento e quais custos sociais e ambientais são aceitáveis implica escolhas de poder, interesses e valores. É exatamente nesse terreno — o da decisão política sobre o futuro — que se reorganizam as tensões centrais do mundo contemporâneo.

<><> América Latina e Brasil: entre a regressão autoritária e a disputa pelo futuro

Para a América Latina, o encerramento de 2025 não é apenas o retrato de um mundo em crise; é um teste histórico. A região volta a ser pressionada a escolher entre dois caminhos conhecidos: submeter-se novamente a projetos regressivos, financeirizados e autoritários, ou disputar um novo ciclo de desenvolvimento soberano, democrático e socialmente orientado. A direita latino-americana apresenta-se como “antissistema”, mas governa para o sistema mais concentrador e excludente que existe: o do rentismo financeiro, da desindustrialização e da destruição do Estado. Onde chega ao poder, desmonta políticas sociais, entrega patrimônio público e criminaliza a política. Não oferece crescimento sustentável nem inclusão. Oferece ajuste permanente e conflito social. Na verdade, não há neutralidade possível. A América Latina não fracassou por excesso de Estado, direitos ou democracia. Fracassou sempre que renunciou a planejamento, política industrial, soberania financeira e integração regional. Fracassou quando aceitou que desenvolvimento fosse sinônimo de exportar commodities e remunerar capitais voláteis. Fracassou quando naturalizou a desigualdade.

O Brasil ocupa posição estratégica nessa encruzilhada. Ou lidera um projeto de reconstrução produtiva, social e ambiental, ou será arrastado para a periferia ampliada de um mundo fragmentado. Democracia sem desenvolvimento é frágil; desenvolvimento sem democracia é regressão. A extrema direita avança exatamente onde o Estado se ausenta e onde a política abdica de disputar o sentido do progresso.

Encerrar 2025 não é um exercício de retrospectiva neutra. É reconhecer que o sistema internacional entrou em uma fase de transição prolongada, marcada por instabilidade estrutural, competição entre projetos e enfraquecimento deliberado das regras que organizaram o mundo no pós-guerra. A fragmentação da ordem global, o esvaziamento das instituições multilaterais e a ascensão de forças autoritárias não são fenômenos desconectados: são partes de um mesmo processo de reorganização do poder em escala mundial. Para a América Latina, essa conjuntura impõe escolhas difíceis e inadiáveis. A região volta a ser pressionada a aceitar um lugar subordinado na economia global, baseado na reprimarização produtiva, na financeirização e na contenção permanente de direitos sociais. A experiência recente demonstra que esse caminho não produz estabilidade, nem crescimento sustentado, nem coesão social. Produz desigualdade, vulnerabilidade externa e ciclos recorrentes de crise política.

O Brasil ocupa posição central nessa encruzilhada. Pela dimensão de sua economia, pela complexidade de sua estrutura produtiva e por seu papel no Sul Global, o país não pode limitar-se a administrar desequilíbrios. A defesa da democracia, neste contexto, não se resume à preservação de procedimentos eleitorais, mas exige capacidade efetiva de formular projetos nacionais de desenvolvimento, reduzir desigualdades, gerar emprego e reconstruir a confiança social. Sem isso, a democracia torna-se frágil e exposta ao avanço de soluções autoritárias. Do ponto de vista da economia política, não há espaço para ilusões tecnocráticas. Desenvolvimento não é resultado automático de mercados desregulados nem de ajustes fiscais permanentes. É produto de escolhas políticas, de planejamento, de coordenação entre Estado e sociedade e de um projeto nacional capaz de articular crescimento econômico, inclusão social e sustentabilidade ambiental.

O mundo que emerge após 2025 será mais competitivo, menos tolerante a improvisações e menos generoso com países que abdicarem de sua capacidade de decisão. Para o Brasil e para a América Latina, soberania, desenvolvimento e democracia deixam de ser categorias abstratas e passam a definir a própria possibilidade de futuro. Não se trata de retórica, mas de sobrevivência histórica em um sistema internacional cada vez mais instável e desigual.

 

Fonte: Brasil 247

 

Banqueiro, pastor e empresários: quem são os principais alvos da PF no caso do Banco Master?

A Polícia Federal ampliou, nas últimas semanas, o cerco a empresários e executivos ligados ao Banco Master, do banqueiro Daniel Bueno Vorcaro.

A investigação tem se desdobrado em diferentes frentes e alcançado diferentes personagens do mercado financeiro e empresarial em meio à expectativa sobre se ela atingirá figuras do universo político.

No epicentro do caso está Daniel Vorcaro, controlador do Master e que é apontado como o líder de uma organização criminosa que teria agido contra o Sistema Financeiro Nacional.

Em novembro, ele foi preso durante a primeira fase da Operação Compliance Zero, que apura se o grupo liderado por ele teria articulado a venda de carteiras de crédito falsas ao Banco de Brasília (BRB) em 2025, numa transação envolvendo R$ 12,2 bilhões.

A defesa de Vorcaro nega irregularidades, afirma que ele é inocente e diz que as tratativas com o BRB não passaram de um estágio preliminar, sem transferência definitiva de carteiras.

Mas a partir de janeiro, começaram a aparecer os indícios de que o caso poderia atingir outros empresários.

A segunda fase da Compliance Zero, deflagrada em 14 de janeiro, mirou nomes próximos ao banqueiro e ao entorno do conglomerado, entre eles o seu cunhado, o pastor e empresário Fabiano Campos Zettel e o empresário Nelson Tanure. Ambos foram alvos da operação.

Outro personagem alcançado pela segunda fase foi João Carlos Mansur, fundador e ex-executivo da Reag Investimentos, alvo de buscas, mas não preso.

Em meio à escalada do caso, a investigação também passou a atrair atenção pelo seu potencial de revelar relações e estruturas complexas que, segundo investigadores, teriam permitido o crescimento acelerado do conglomerado e ampliado o alcance das suspeitas para além do banco.

Enquanto isso, cálculos preliminares apontam que a quebra do Banco Master e do Will Bank, vinculados ao conglomerado controlado por Vorcaro, pode ter impacto de R$ 47 bilhões no mercado financeiro brasileiro.

Mas em meio a novas diligências, prisões pontuais e decisões judiciais, a pergunta que muita gente ainda se faz é: quem são os principais alvos do caso Master?

<><> Daniel Bueno Vorcaro

Nascido em Belo Horizonte, Daniel Bueno Vorcaro, 42 anos, é o personagem principal do caso envolvendo o Banco Master. Em 18 de novembro, ele foi preso pela Polícia Federal na primeira fase da Operação Compliance Zero, que investiga crimes contra o sistema financeiro nacional, gestão fraudulenta, gestão temerária e organização criminosa.

Sua prisão aconteceu no dia em que ele tentava embarcar em um jatinho privado para Dubai. No dia 28 de novembro, porém, ele foi solto após uma decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, atendendo a um pedido de sua defesa.

Segundo a Polícia Federal, ele seria o líder de uma organização criminosa responsável pela venda de carteiras de crédito falsas para o Banco de Brasília (BRB), em 2025. A transação teria deixado um prejuízo de R$ 12,2 bilhões ao banco público vinculado ao governo do Distrito Federal.

Sua defesa alega, em nota enviada a BBC News Brasil, que ele é inocente.

"Daniel Vorcaro reafirma sua inocência, segue colaborando integralmente com as autoridades e acredita que a análise completa dos fatos afastará interpretações que não refletem a realidade", diz.

Daniel Vorcaro é filho do empresário Henrique Vorcaro, e cresceu em Belo Horizonte, onde o pai criou um conglomerado imobiliário e onde Daniel deu os primeiros passos profissionais.

A partir de 2004, Daniel passou a atuar, assim como o pai, no setor imobiliário e acumulou um patrimônio milionário.

Em 2017, porém, ele deu uma guinada em sua carreira empresarial e assumiu o controle do Banco Máxima, então sob o comando do banqueiro Saul Sabbá.

À época, o banco enfrentava dificuldades financeiras e estava inabilitado a operar pelo Banco Central.

Com a chegada do mineiro, o banco mudou de nome para o atual Master e a partir de então Vorcaro deu início a uma estratégia agressiva de expansão dos seus negócios.

Por um lado, a empresa investiu na compra de empresas em dificuldades financeiras para obter lucro vendendo as operações posteriormente. Por outro, o Master passou a aumentar sua captação de recursos por meio da emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs), um ativo financeiro que pode ser adquirido por empresas e por pessoas físicas.

No mercado financeiro, a estratégia de Vorcaro era considerada agressiva porque o Master pagava, na média, juros sobre os CDBs entre 130% e 140% do CDI (índice atrelado à taxa básica de juros), enquanto seus concorrentes pagavam aproximadamente 110%.

A estratégia de crescimento do Master no período, segundo depoimento de Vorcaro, era baseada na segurança oferecida pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), uma associação privada formada por bancos brasileiros que garante, em caso de liquidação de um banco, o ressarcimento de até R$ 250 mil por pessoa física ou jurídica em relação aos investimentos feitos na instituição liquidada.

"O plano de negócio do Banco Master era 100% baseado no FGC e não havia nada de errado nisso, essa era a regra do jogo. E após a gente começar a crescer, muda-se a regra do jogo", disse Vorcaro à PF em depoimento.

A expansão do Banco Master permitiu que Vorcaro e sua família mantivessem um estilo de vida luxuoso.

Em 2023, o banqueiro contratou o DJ Alok para a festa de 15 anos de sua família. Segundo relatos divulgados à época pela imprensa mineira, a festa teria custado um total de R$ 15 milhões. Quando vinha a Brasília, Vorcaro ficava em uma mansão avaliada em R$ 36 milhões.

Durante a primeira fase da Operação Compliance Zero, a PF chegou a apreender um patrimônio avaliado em R$ 230 milhões em obras de arte, joias, dinheiro em espécie e obras de arte.

Ao longo dos anos, Vorcaro também passou a ser conhecido pelo trânsito junto ao ambiente político e jurídico de Brasília. Seu banco firmou contratos milionários com escritórios vinculados a ministros e ex-ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) como o da mulher de Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, e o do ex-ministro Ricardo Lewandowski.

No mundo político, Vorcaro é apontado como próximo de políticos como o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e do presidente do União Brasil, Antonio Rueda, mas também já manteve ao menos uma reunião privada com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo informação divulgada pelo jornal O Globo.

Em seu depoimento, Vorcaro minimizou o impacto de suas conexões políticas em seus negócios e negou favorecimento em suas transações envolvendo o Banco Master e o BRB.

"Se eu tenho tantas relações políticas, como estão dizendo, e se eu tivesse pedido a ajuda desses políticos, eu não estaria com a operação do BRB negada, eu não estaria aqui de tornozeleira, eu não teria sido preso e estava com a minha família sofrendo o que a gente está sofrendo", disse Vorcaro que, desde sua soltura, usa tornozeleira eletrônica.

Procurada pela BBC News Brasil, a defesa de Vorcaro enviou uma nota dizendo que "as tratativas envolvendo a eventual cessão de ativos ao Banco de Brasília (BRB) permaneceram em estágio preliminar e não resultaram em qualquer transferência definitiva de carteiras".

A nota criticou ainda supostos "vazamentos sem identificação de fonte" que estariam antecipando "julgamentos que cabem exclusivamente às instâncias competentes".

Ainda de acordo com a nota, o Banco Master enfrentava uma crise de liquidez no momento de sua liquidação extrajudicial, em novembro do ano passado, "mas mantinha situação de solvência, com ativos superiores aos passivos".

A nota ainda defendeu as operações do Master baseadas no FGC.

"A estratégia de negócios baseada em captação por instrumentos cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos era conhecida do mercado e operava dentro das regras vigentes", disse a nota.

<><> Fabiano Zettel

Fabiano Campos Zettel tem 50 anos e é empresário, fundador e CEO da Moriah Asset, um fundo de investimento com participação em empresas ligadas à saúde e ao bem-estar. Ele é cunhado de Vorcaro, casado com a irmã do banqueiro, Natália.

Zettel foi preso no dia 14 de janeiro, durante a deflagração da segunda fase da Operação Compliance Zero. Ele foi detido pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos prestes a embarcar para os Emirados Árabes Unidos.

Ele foi solto no mesmo dia e foi alvo de mandado de busca pessoal expedido pelo STF a pedido da PF.

A decisão pela prisão de Zettel, assinada pelo ministro do STF Dias Toffoli, não detalhou quais os crimes são atribuídos a ele pela PF.

Segundo o documento, o pedido foi motivado porque "a prática criminosa do investigado envolve diversos crimes contra o Sistema Financeiro Nacional".

Os empreendimentos ligados ao ramo de saúde e bem-estar de Zettel não estão vinculados diretamente a Vorcaro, mas ele já atuou como diretor da Super Empreendimentos, uma das empresas ligadas ao cunhado e que foi responsável pela compra da mansão que Vorcaro usava em Brasília, avaliada em R$ 36 milhões.

Antes de entrar no radar da PF, Zettel ganhou notoriedade em 2022 ao se tornar o maior doador das campanhas do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Somadas, as doações de Zettel a ambos chegaram a R$ 5 milhões.

Além de atuar no ramo empresarial, Zettel é pastor evangélico atualmente vinculado à Igreja Batista da Lagoinha. A igreja é liderada pelo pastor André Valadão, que assim como Zettel, é apoiador de candidatos de direita como Jair Bolsonaro.

Em nota enviada à BBC News Brasil, a assessoria de imprensa de Zettel disse que não teve acesso ao teor das investigações, mas que está "à inteira disposição das autoridades responsáveis". Ainda de acordo com a nota, Zettel "tem atividades empresariais conhecidas e lícitas, sem relação alguma com a gestão do Banco Master".

<><> João Carlos Mansur

João Carlos Mansur é fundador e ex-executivo da Reag Investimentos. No dia 14 de janeiro, ele foi alvo de mandados de busca e apreensão da segunda fase da Operação Compliance Zero. Ele não foi preso.

No dia 15 de janeiro, a Reag, que agora se chama CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, foi liquidada pelo Banco Central em meio a investigações conduzidas pela Polícia Federal que apuram as suspeitas de que a empresa teria cometido fraudes financeiras junto com o Banco Master.

Segundo as investigações, a gestora é suspeita de usar seus fundos para praticar fraudes financeiras em benefício do grupo Master, como movimentar recursos de forma atípica, inflar resultados e minimizar riscos com indícios de lavagem de dinheiro.

A BBC News Brasil enviou questionamentos à assessoria de imprensa da Reag e de João Carlos Mansur, mas não obteve resposta.

Em seu site, no entanto, a empresa mantém uma nota na qual afirma que "vem a público repudiar alegações publicadas na imprensa que buscam indevidamente associar a companhia e a atuação de seus executivos a práticas irregulares e organizações criminosas, sem apresentar quaisquer provas de envolvimento em atos ilícitos".

Mansur é bacharel em ciências contábeis e fundou a Reag em 2012. Antes disso, atuou em empresas do setor de auditoria e do mercado financeiro.

De acordo com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), a Reag possui cerca de R$ 299 bilhões em fundos administrados por ela, o que a coloca como uma das principais gestoras de fundos de investimento do Brasil.

Mansur também criou vínculos com o mundo do futebol. Ele atuou como executivo da incorporadora WTorre, responsável pela construção do Allianz Parque, a arena esportiva do Palmeiras, em São Paulo.

Além de ser investigado pelos supostos crimes investigados pela Operação Compliance Zero, Mansur também foi alvo, em 2025, da Operação Quasar, que investiga as ramificações da facção Primeiro Comando da Capital (PCC) no mercado clandestino de combustíveis.

De acordo com as investigações, integrantes da facção usavam fundos geridos pela Reag para lavar dinheiro do tráfico de drogas e da venda de combustíveis adulterados e fazer investimentos.

Em setembro de 2025, Mansur renunciou ao cargo de executivo da Reag.

<><> Nelson Tanure

Nelson Tanure tem 74 anos e é um dos operadores do setor financeiro mais conhecidos do Brasil.

Nascido na Bahia, ele é formado em administração de empresas e sua trajetória profissional ficou conhecida, em parte, por conseguir comprar empresas em dificuldades financeiras a preços baixos e vendê-las com lucro posteriormente.

Atualmente, ele tem participações em empresas como a concessionária de energia elétrica Light, do Rio de Janeiro, a petrolífera Prio e a construtora Gafisa.

No dia 14 de janeiro, ele foi alvo de mandados de busca e apreensão autorizados pelo STF durante a segunda fase da Operação Compliance Zero.

De acordo com uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo, Tanure foi apontado pela PF como "sócio-oculto" dos negócios de Daniel Vorcaro com o Banco Master. Citando um documento enviado ao Supremo, a Procuradoria-Geral da República (PGR) teria afirmado que Tanure atuaria "exercendo influência por meio de fundos e estruturas societárias complexas".

Ainda segundo o jornal, Toffoli determinou o bloqueio do patrimônio de Tanure.

A BBC News Brasil não conseguiu localizar a defesa de Tanure, mas, após a deflagração da operação, no dia 14 de janeiro, seus advogados publicaram uma carta escrita pelo empresário negando o envolvimento de Tanure com supostas irregularidades do caso Master.

"Não fui nem sou controlador do extinto Banco Master, tampouco seu sócio, ainda que minoritário, direta ou indiretamente, inclusive por meio de opções, instrumentos financeiros, debêntures conversíveis em ações ou quaisquer mecanismos equivalentes", diz um trecho da carta.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Faça aos outros o que gostaria que fizessem a você

Os cristãos parecem não ter mais muito espaço na esquerda — e aqueles que ainda restam raramente falam abertamente sobre sua fé. No entanto, como Tony Benn frequentemente apontava, existe uma longa história do que ele chamava de socialismo cristão, uma corrente com a qual simpatizava profundamente, apesar de não se identificar como cristão.

E sempre que falo sobre como minha própria espiritualidade influencia minha política, muitos outros se manifestam dizendo que também foram inspirados a se envolver na militância socialista por razões semelhantes — mesmo que não destaquem esse aspecto de sua identidade política em círculos militantes. Essa tensão entre a visão generalizada na esquerda de que a Igreja muitas vezes representa uma força regressiva na sociedade britânica e a fé cristã profundamente arraigada de muitos militantes de esquerda é muito real — e suspeito que seja uma tensão que não se limita à minha própria Igreja Anglicana.

As raízes da compreensão de Tony Benn sobre o socialismo cristão residem na sua identificação da profunda divisão que sempre existiu entre as instituições religiosas, enquanto bastiões do status quo, e a promessa revolucionária da espiritualidade cristã — melhor exemplificada nos modos de vida comunistas praticados pelos primeiros cristãos. Os ensinamentos de Jesus encontraram forte resistência perante as autoridades religiosas da época precisamente porque a ideia de amor radical, que se encontra na base do cristianismo — e, de fato, da maioria das grandes religiões — é uma afronta à religião organizada, que muitas vezes se preocupa mais com questões de poder.

<><> Conservadorismo cristão

AIgreja Anglicana é, sem dúvida, um bastião do status quo na sociedade britânica. A Igreja da Inglaterra é a décima terceira maior proprietária de terras do país; possui mais de 40 mil hectares de terra, avaliados em mais de 2 bilhões de libras. Justin Welby, o atual líder da Igreja da Inglaterra, é um ex-aluno de Eton e graduado pela Universidade de Cambridge, que passou o início de sua carreira trabalhando na indústria petrolífera. Sua chefe é, naturalmente, a Rainha. Isso não significa que a Igreja não faça nada de bom. Os fiéis costumam ser alguns dos primeiros voluntários em centros de distribuição de alimentos, centros para jovens e projetos para pessoas em situação de rua. E o próprio Welby já fez campanha sobre questões como a relação entre austeridade e o uso de bancos de alimentos, sonegação de impostos e imigração. Mas a postura voluntarista da Igreja prioriza a filantropia e campanhas pontuais em detrimento de reformas estruturais que poderiam, de fato, oferecer soluções para esses desafios.

E há muita verdade na ideia de que a Igreja Anglicana é o Partido Conservador em oração. Em 2017, 58% dos membros da Igreja da Inglaterra votaram nos Conservadores. Quando fui levada à igreja ainda jovem, frequentemente me perguntava como alguém que se dizia cristão poderia justificar votar no Partido Conservador. Recebi diversas explicações tímidas sobre a necessidade de manter política e fé separadas, ou sobre a diferença entre praticar o amor e a tolerância na própria vida e tentar construir uma sociedade baseada em princípios cristãos, que, em um mundo imperfeito, inevitavelmente descambaria para o totalitarismo.

Nos Estados Unidos, onde pode ser ainda mais difícil entender como eleitores republicanos, defensores do porte de armas e negacionistas das mudanças climáticas, podem se declarar cristãos, os evangélicos estiveram no centro do movimento para eleger Donald Trump. Uma das vertentes mais importantes desse movimento é a chamada “teologia da prosperidade”, que forneceu uma base ideológica para a direita religiosa nos Estados Unidos. Seus adeptos sustentam que a riqueza é uma bênção de Deus que pode ser acumulada com base em expressões de fé ou doações a uma determinada igreja, dando grande importância à Parábola dos Talentos encontrada nos evangelhos de Lucas e Mateus.

Mas, embora essa doutrina seja predominantemente estadunidense, o conservadorismo cristão está longe de ser um fenômeno exclusivo dos EUA. Ao conversar com cristãos praticantes em países ricos, percebe-se que eles frequentemente estão entre os primeiros a defender o status quo, ao mesmo tempo que expressam compaixão por suas vítimas. Nesse contexto, a fé cristã se torna, nas palavras de Tony Benn, uma “injunção generalizada dirigida aos ricos e poderosos para que expressem seu amor sendo bons e gentis; e aos pobres para que retribuam esse amor sendo pacientes e submissos”. Não é de se admirar que as pessoas vejam cada vez mais o cristianismo como uma mistura confusa de contradições e hipocrisia.

<><> A prática e a pregação

Mas a hipocrisia da Igreja revela sua natureza dual. Por um lado, a Igreja é uma instituição que funciona como um centro de conexões glorificado para a elite britânica e, historicamente, como uma forma de exigir obediência da maioria da população sob supostos pretextos éticos. Por outro lado, a vida e os ensinamentos de Jesus nos encorajam a questionar constantemente a autoridade arbitrária, a priorizar o cuidado mútuo em detrimento da competição e a exaltar tanto a natureza quanto a vida humana como sagradas, em oposição a uma sociedade que as trata como descartáveis.

É claro que o interesse de classe puro e simples se sobrepõe à religião na maioria das vezes — da mesma forma que também prevalece sobre a ideologia. Liberais fervorosos frequentemente sacrificam seu suposto compromisso com a liberdade de expressão quando se trata de reprimir as atividades dos sindicatos; e cristãos ricos facilmente se esquecem das passagens bíblicas em que Jesus fala sobre a influência corruptora da riqueza na alma humana.

Mas o fato de a classe social poder se sobrepor à ideologia não significa que a ideologia seja irrelevante. A teoria liberal fornece um conjunto de padrões pelos quais podemos avaliar as conquistas do liberalismo na prática — uma comparação que revela as profundas deficiências do mundo em que vivemos. Um mundo com liberdade de expressão e mercados genuinamente livres seria muito diferente daquele em que vivemos, onde o protesto é criminalizado enquanto as grandes empresas e instituições financeiras saem impunes de suas transgressões.

Da mesma forma, observar que a Igreja Cristã muitas vezes age como um baluarte do status quo não deve nos impedir de notar a enorme lacuna que existe entre as práticas diárias da Igreja e a natureza radical dos ensinamentos cristãos. Quando conversei com o Dr. Cornel West no meu podcast A World to Win [Um Mundo a Ganhar], tivemos uma longa discussão sobre o papel do cristianismo no movimento socialista. Ele falou sobre como sempre se viu como “um cristão revolucionário, no sentido do legado de Martin Luther King e Fannie Lou Hamer”. Ele reconheceu as críticas à Igreja Cristã feitas por grupos como os Panteras Negras, bem como as críticas às próprias escrituras — particularmente “elementos da Bíblia Hebraica sobre genocídio e patriarcado”, que, segundo ele, devem ser mantidos à distância do restante dos ensinamentos de Jesus.

Mas, segundo o Dr. West, o fundamento do cristianismo é a ideia de que “a forma mais elevada de ser humano é espalhar a bondade amorosa”. Essa compreensão do cristianismo como um projeto de “libertação e emancipação” — do tipo buscado por Moisés — exige que façamos “uma crítica profunda não apenas ao Faraó, mas também ao sistema que o mantinha no poder”.

E esses elementos radicais também podem ser encontrados nas próprias escrituras. West cita a expulsão dos mercadores do templo por Jesus:

Quem são os verdadeiros magnatas do império estadunidense? Wall Street, Pentágono, Casa Branca, Congresso, Hollywood, todos no mesmo lugar. Harvard, Yale, Princeton, todos no mesmo lugar. Jesus os expulsa a todos. E é por isso que ele foi crucificado pelo império mais poderoso da época. Então, nesse sentido, há o que eu chamo de uma faísca profética naquela escritura hebraica; vinda de Jesus, de Maomé à sua maneira profética, que leva a um Malcolm X, por exemplo.

Essa visão do cristianismo teria encontrado eco em Tony Benn, que via a Bíblia como uma história de luta entre “os reis que detinham o poder e os profetas que pregavam a justiça”. “Essa interpretação radical da mensagem de fraternidade e sua clara agitação anti-establishment”, argumentava ele, “surgiu repetidas vezes ao longo de nossa história”, desde a Revolta Camponesa, passando pelos Diggers, até os metodistas que ajudaram a formar o Partido Trabalhista.

<><> Cristianismo revolucionário

Éclaro que não estou argumentando que seja necessário ser cristão, ou mesmo ter qualquer fé, para ser socialista. Concordo com Tony Benn que os socialistas podem aprender muito com os ensinamentos de Jesus, o que nos permite expor uma elite que se reveste de religiosidade, enquanto sequer tenta viver como Jesus viveu. O próprio Jesus fez exatamente isso com os fariseus, que o viam como uma ameaça ao seu poder e prestígio: ele usou seu conhecimento incomparável das escrituras hebraicas para encurralá-los, expondo sua hipocrisia para todos verem.

Esse argumento é corroborado pela mensagem do próprio Dr. Martin Luther King Jr., cujo legado radical é frequentemente ignorado por uma elite que busca cooptar sua vida. Talvez o elemento mais relevante dos ensinamentos do Dr. King hoje seja sua observação de que:

O poder sem amor é imprudente e abusivo, e o amor sem poder é sentimental e anêmico. O poder, em sua melhor forma, é o amor implementando as exigências da justiça, e a justiça, em sua melhor forma, é o poder corrigindo tudo o que se opõe ao amor. Os socialistas frequentemente se dirigem ao mundo com uma mensagem de amor que ignora as realidades do poder; e se dirigem uns aos outros com uma orientação voltada para o poder que ignora nossa mensagem de amor.

A fé cristã oferece tanto um conjunto de ensinamentos que podem expor a hipocrisia dos poderosos, quanto um conjunto de práticas a serem observadas em nossas interações com o mundo e uns com os outros. Só por isso, já vale a pena dedicar alguma atenção à vida e à obra de Jesus.

 

Fonte: Por Grace Blakeley - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

 

Fibra é a nova proteína? Os surpreendentes benefícios da mais nova tendência de bem-estar

No ano passado, muitos de nós buscamos proteínas incessantemente, na esperança de aumentar nossa resistência e melhorar a forma física.

Mas, nos últimos meses, o principal tema alimentar nas redes sociais passou a ser a fibra, algo que muito poucos de nós consumimos em quantidade suficiente todos os dias.

Postagens com as hashtags #fibremaxxing e #fibermaxxing ("maximizando as fibras", em português) receberam mais de 150 milhões de visualizações no TikTok. E vídeos de sementes de chia sendo lançadas sobre mingau e nutricionistas alardeando os benefícios do feijão-vermelho e do grão-de-bico surgiram nos feeds de todas as pessoas.

O NHS (o serviço público de saúde do Reino Unido) recomenda aos adultos o consumo de 30 g de fibra por dia. Mas 96% dos britânicos não atingem esta recomendação. Muitos não chegam nem perto.

O consumo médio diário de fibra no país é de cerca de 16,4 g — e as mulheres comem menos que os homens.

Muitos nutricionistas afirmam que esse alvoroço em torno das fibras não é algo ruim.

A nutricionista Kate Hilton explica que a fibra foi considerada, por muito tempo, um "nutriente pouco charmoso", devido às suas associações à digestão e à flatulência, ao contrário da relação de longa data entre a proteína e a boa forma física.

"Quando comecei a observar as postagens sobre a fibra, fiquei bastante empolgada", afirma a nutricionista Kristen Stavridis. "Parece que as mensagens sobre a saúde do intestino finalmente estão atingindo as pessoas."

, comer mais alimentos fibrosos, como arroz integral e batata assada, também traz outros benefícios.

"As pessoas que ingerem mais fibras viverão por mais tempo, sofrerão menos doenças cardiovasculares, terão menos câncer e menos risco de condições como diabetes", segundo o professor de nutrição Kevin Whelan, do King's College de Londres.

Whelan destaca que alguns estudos indicam que a fibra também pode melhorar nossa saúde mental.

Yeshe Sander é de Birmingham, no Reino Unido. Ela tem 24 anos de idade e conta que aumentar a ingestão de fibra na sua alimentação para 30 g por dia a ajudou a se sentir "muito melhor", física e mentalmente.

Ela foi criada com pais que tentaram fazer com que ela comesse oito porções de frutas, legumes e verduras por dia e tivesse uma dieta rica em fibras. Mas, durante a adolescência, ela decidiu se rebelar contra isso.

"Eu não queria nada que fosse comida saudável", conta Sander. "Quando era adolescente eu comia muito chocolate, rosquinhas e biscoitos."

Na faculdade, sua refeição rápida favorita era macarrão instantâneo com torradas brancas ou pizza congelada.

"Somente quando fiquei mais velha, com pouco mais de 20 anos, pensei que talvez eles tivessem razão", afirma ela, em relação aos seus pais.

Depois de se sentir fraca, indisposta e sem motivação, ela reexaminou sua alimentação e voltou a comer alimentos mais saudáveis. E, após aumentar sua ingestão de fibras, Sander percebeu a diferença.

"Agora, consigo ver claramente", conta Sander. "Quando como mais fibras, minha saúde mental melhora e minha ansiedade e meu desânimo diminuem."

O café da manhã é a sua refeição preferida. Ela recomenda comer mingau com diversas coberturas, para consumir um pouco de fibra pela manhã.

<><> O que é a fibra e qual a sua importância na alimentação?

A fibra alimentar é uma cadeia de moléculas de açúcar produzidas pelas plantas, que não pode ser digerida por seres humanos. Ela é encontrada em frutas, verduras, legumes, cereais, feijões e nozes.

Os efeitos da fibra foram descobertos nos anos 1970. Acreditava-se que a fibra fosse apenas um "material grosseiro e duro", que ajudava nossos corpos a se livrar dos resíduos, segundo Whelan.

"Agora, sabemos que ela é muito mais do que isso. Ela traz outros benefícios à saúde além do intestino."

As fibras fermentáveis, encontradas em alimentos como aveia e legumes, ajudam as bactérias boas do intestino delgado a crescer, enriquecendo nosso microbioma intestinal.

Já as fibras insolúveis, encontradas no pão integral, farelo e nas cascas das frutas e legumes, ajudam as fezes a trafegar pelo intestino.

Por fim, as fibras viscosas, encontradas na aveia, sementes e nas cascas de algumas frutas e legumes, reduzem a velocidade de absorção do açúcar e seus picos na corrente sanguínea.

Todos esses tipos diferentes de fibras, entre outros, nos ajudam a manter a saúde, explica Whelan.

Em relação aos benefícios do consumo de fibras à saúde, Whelan indica diversos estudos epidemiológicos em larga escala. Eles registram os hábitos alimentares de um grande grupo de pessoas e quais doenças elas desenvolveram.

Estes estudos nem sempre levam em consideração outros fatores, como a demografia, o ambiente e consciência da alimentação. Mas o professor afirma que existem também testes clínicos que indicam que a fibra traz benefícios à saúde de muitas partes do corpo.

Alguns estudos também sugerem que a alimentação com alto teor de fibra pode melhorar a saúde mental, segundo Whelan.

Um microbioma saudável, alimentado com fibra pré-biótica que promove a saúde das bactérias do intestino, potencialmente, pode reduzir a ansiedade e o risco de depressão.

"Existe uma comunicação em duas vias entre o nosso cérebro e o intestino, o eixo intestino-cérebro", explica ele.

Testes clínicos sugerem que certas fibras (as fibras pré-bióticas que alimentam a microbiota) podem ajudar a melhorar o humor.

Uma descoberta surpreendente das pesquisas de Whelan foi que a fibra ajudou a melhorar a cognição em pessoas de mais de 60 anos.

<><> 'Minha pele melhorou, tenho mais energia'

Vicky Owens conta que aumentar sua ingestão de fibra após um problema de saúde no ano passado trouxe enormes benefícios.

Como empresária com pouco tempo para cozinhar, ela se alimentava principalmente com delivery e alimentos prontos.

A jovem de 25 anos começou a ter sintomas sem motivo aparente, como ataques de pânico, problemas gástricos e olhos inchados e irritados. Seu médico ficou perplexo, segundo ela.

Ela começou a reavaliar seu estilo de vida e, depois que um acupunturista sugeriu que ela alterasse sua alimentação, Owens percebeu que quase não comia fibras.

Ela começou a cortar os alimentos ultraprocessados e dar preferência a frutas e verduras frescas, macarrão integral e aveia. Por fim, ela começou a ver enormes benefícios.

"Minha pele melhorou, tenho mais energia", conta ela. "E acho, como um todo, que, agora, tudo está muito mais equilibrado."

<><> Como acrescentar mais fibra à sua alimentação

Pequenas alterações são uma ótima forma de acrescentar mais fibra às suas refeições, segundo Kate Hilton. Aqui estão algumas ideias:

•        Substitua o pão branco por pão integral com sementes.

•        Substitua lanches como chocolate e batatas fritas por amêndoas, kiwi e pipoca.

•        Acrescente sementes, nozes, frutas ou creme de amêndoas ao seu mingau ou iogurte.

•        Troque o arroz branco por arroz integral, ou misture meio a meio.

•        Acrescente abacate, homus ou salada ao seu sanduíche.

•        Se quiser começar seu dia com cereais, prefira biscoitos de trigo, flocos ou farelo de cereais.

Este é um exemplo de cardápio, preparado por Kristen Stavridis, para atingir 30 g de fibra por dia. Observe que as quantidades de fibra variam de acordo com a marca e o tamanho das porções:

•        Café da manhã: duas fatias grossas de torrada de pão integral com sementes (7 g de fibra), uma banana fatiada (1,5 g de fibra) e mel.

•        Almoço: batata assada (5 g de fibra), 100 g de feijão cozido (4 g de fibra), queijo, atum e salada de folhas diversas, seguida por um kiwi (2 g de fibra).

•        Lanche: uma porção (20 g) de pipoca (2 g de fibra).

•        Jantar: espaguete de trigo integral (6,5 g de fibra) com carne moída à bolonhesa e feijão-vermelho (5 g de fibra).

No Reino Unido e em outros países, as pessoas comem muitos alimentos ultraprocessados e de lojas de conveniência, que normalmente não contêm muita fibra, segundo Hilton.

"Os carboidratos que consumimos não costumam ser alimentos como grãos integrais e dependemos muito mais de carnes para conseguir nossa proteína, em vez de feijões ou outras fontes vegetais", destaca ela.

Stavridis explica que a recente obsessão por proteínas pode ter também afetado a ingestão de fibra das pessoas. Alguns priorizaram a proteína à custa de outros nutrientes.

A proteína é importante para a saúde, mas ela aconselha às pessoas que "não fiquem obcecadas por ela e comecem a acompanhar a fibra", para atingir uma alimentação geral saudável.

<><> Mudar lentamente

Passar a comer mais fibras é uma boa decisão para a maioria das pessoas.

Mas, para os portadores de certas condições como doença de Crohn e diverticulite, muitas vezes, esta medida não é recomendada. Nestes casos, é preciso procurar aconselhamento médico antes de qualquer mudança da alimentação.

Muita quantidade, rápido demais, também pode causar problemas, explica Cara Wheatley-McGrain, da empresa de bem-estar Mindful Gut, que ajuda as pessoas a mudar sua alimentação.

"Aumente lentamente", aconselha ela. "Se fizermos subitamente uma mudança radical, o nosso intestino se surpreende e podemos acabar com inchaço e prisão de ventre."

Ela também recomenda beber muita água.

Wheatley-McGrain está "muito feliz" por ver a fibra finalmente sendo levada a sério nas redes sociais. Mas ela não quer aumentar ainda mais a pressão sobre os jovens, que enfrentam um bombardeio constante de diferentes dietas e regimes alimentares.

"Precisamos observar tudo para fazer as melhores escolhas para nós", orienta ela.

"Acrescente um pouco de fibra à sua alimentação, lentamente, observe como você se sente e siga adiante."

 

Fonte: BBC News