sábado, 12 de setembro de 2026

O alerta para as eleições de 2026: se houver sangue, pode ser uma armadilha

Não há prova de uma false flag em preparação contra o Brasil. Há, porém, um ambiente real em que um atentado, uma chacina, um confronto de fronteira ou outro episódio grave pode ser convertido em arma eleitoral antes que a investigação estabeleça autoria e motivação. Nas semanas decisivas de 2026, preservar a democracia também significa impedir que suspeitas, inteligência opaca ou interesses políticos ocupem o lugar da prova.

<><> Antes da autoria, a prova

A menos de um mês do primeiro turno, o Brasil precisa se preparar para uma possibilidade que nenhuma democracia responsável deveria tratar como delírio e nenhum jornalista responsável deveria apresentar como fato consumado. Se um atentado, uma chacina, um ataque contra autoridades, uma explosão, um confronto de fronteira ou qualquer episódio excepcional de violência atravessar a reta final das eleições de 2026, a questão decisiva não será apenas o que aconteceu. Será quem conseguirá dizer primeiro quem fez. É nesse intervalo, entre o sangue e a prova, que uma crise de segurança pode ser convertida em crise política e uma suspeita ainda sem perícia pode ganhar a força de uma verdade eleitoral.

Não há, até agora, evidência pública de que uma false flag esteja sendo preparada contra o Brasil, de que exista uma operação estrangeira destinada a produzir violência para prejudicar Lula ou de que qualquer organização esteja planejando um incidente para interferir no voto de outubro. Afirmar isso seria trocar investigação por fantasia. O alerta é outro, e é mais sério porque pode ser demonstrado. O próprio Estado brasileiro considera crime organizado, interferência externa, desinformação e extremismo violento fatores de risco para a integridade democrática em 2026. Ao mesmo tempo, o combate aos cartéis foi militarizado no entorno sul-americano, PCC e Comando Vermelho passaram a carregar uma classificação terrorista nos Estados Unidos e a associação política entre Lula e essas facções já entrou na campanha eleitoral brasileira.

É esse encontro de violência possível, disputa eleitoral e atribuição acelerada que exige atenção máxima. Numa eleição em que cada choque pode deslocar a agenda nacional, preservar a democracia significa proteger algo elementar: o direito do Estado brasileiro de estabelecer, por evidências, quem fez o quê antes que interesses políticos, redes digitais ou centros estrangeiros de poder façam essa escolha em seu lugar.

O problema tornou-se mais delicado porque, em 2026, a violência brasileira passou a caber dentro de uma arquitetura internacional que não existia nesses termos poucos meses antes. Em 5 de junho, os Estados Unidos incluíram formalmente o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho entre as organizações terroristas estrangeiras e mantiveram ambos como Specially Designated Global Terrorists (SDGTs), categoria de sanções que permite bloquear ativos sob jurisdição norte-americana. A mudança não converte automaticamente um integrante de facção em alvo militar norte-americano, nem autoriza operações dos Estados Unidos em território brasileiro. Mas altera o estatuto político de qualquer episódio de grande repercussão associado a essas organizações. Um crime que, para o Estado brasileiro, pertence ao campo da segurança pública pode agora ser descrito em Washington pelo vocabulário do terrorismo transnacional.

Essa transformação jurídica acontece enquanto o combate aos cartéis deixa de ser tratado apenas como questão policial na estratégia norte-americana para o hemisfério. Em agosto, o Comando Sul colocou em funcionamento a Joint Task Force Western Hemisphere, uma estrutura criada para acelerar e sincronizar operações contra redes classificadas como narcoterroristas. Em 23 de agosto, a nova força realizou um ataque letal contra uma embarcação no Pacífico Oriental, matando dois homens que o SOUTHCOM classificou como narcoterroristas. Cinco dias depois, militares norte-americanos interceptaram outra embarcação em operação coordenada com o Equador, retiraram seus ocupantes e afundaram o barco. O próprio comando afirma que inteligência prévia sustenta a identificação desses alvos.

Nada disso demonstra hostilidade contra o Brasil. Demonstra, porém, que o espaço político em torno de um futuro incidente mudou. Hoje existem estruturas militares, categorias jurídicas e circuitos de inteligência capazes de fazer um episódio envolvendo uma facção brasileira atravessar rapidamente a fronteira entre crime doméstico, terrorismo e segurança hemisférica. A questão estratégica não é imaginar uma invasão nem antecipar uma conspiração. É compreender que a palavra usada para nomear um acontecimento passou a carregar consequências maiores. Quando a classificação antecede a investigação, uma disputa aparentemente semântica pode se transformar em disputa por soberania.

Há precedentes recentes suficientes para mostrar por que esse cuidado não é paranoia. No Equador, operações realizadas em parceria com os Estados Unidos produziram controvérsia justamente sobre a identificação dos alvos. Investigações independentes encontraram casos em que instalações apresentadas como vinculadas a grupos armados não tinham essa conexão demonstrada publicamente, enquanto parte da cadeia de inteligência e seleção de alvos permaneceu fora do escrutínio. Em outros episódios marítimos, ataques de autoria inicialmente obscura foram posteriormente associados por investigação jornalística a um programa encoberto norte-americano. Não se trata de projetar uma lógica equatoriana sobre o Brasil, mas de reconhecer um problema concreto: entre o uso da força e a verdade pública pode existir uma zona de opacidade em que inteligência, classificação e atribuição não são imediatamente verificáveis.

O Brasil também conhece, por outra via, o risco da falsa autoria. Uma investigação aberta em 2018 revelou um plano atribuído a integrantes do PCC para realizar atentados durante o período eleitoral e fazer com que a responsabilidade recaísse sobre o Comando Vermelho. O caso resultou em condenações de primeira instância em 2026. Não há qualquer evidência de continuidade daquele plano nem relação com a eleição atual, mas o precedente é incontornável: a ideia de produzir violência e manipular deliberadamente sua autoria não pertence apenas à história das operações de inteligência. Já apareceu dentro do universo do crime organizado brasileiro.

Os dois casos não são equivalentes. Um expõe os riscos de seleção de alvos baseada em inteligência opaca e autoria operacional pouco transparente; o outro mostra que a falsa atribuição pode integrar uma estratégia criminosa de impacto político. Juntos, impõem uma regra simples para 2026: diante de um episódio grave, a pergunta mais urgente não pode ser quem parece ter feito, quem teria interesse ou quem se beneficia. Precisa ser quem pode ser identificado por uma cadeia de evidências capaz de sobreviver à disputa política.

O terreno político para uma disputa de atribuição já existe. Em seu relatório estratégico para 2026, a Agência Brasileira de Inteligência identifica criminalidade organizada e interferência externa como riscos relevantes à integridade do processo eleitoral. A ABIN registra que facções e milícias podem controlar territórios, coagir eleitores, financiar candidaturas e, em situações extremas, eliminar adversários; no mesmo documento, alerta que atores estatais ou não estatais podem buscar desestabilizar uma eleição por desinformação, ataques cibernéticos ou financiamento oculto. O documento não denuncia uma operação em andamento; reconhece oficialmente que crime, violência, informação e interesses externos já pertencem ao horizonte de segurança do pleito brasileiro.

A preocupação ganhou forma operacional. No Rio de Janeiro, o Tribunal Regional Eleitoral criou uma estrutura específica para enfrentar a infiltração do crime organizado e das milícias nas eleições, incluindo áreas onde domínio territorial e coação podem comprometer o exercício livre do voto. A Polícia Federal, por sua vez, montou uma operação nacional para a proteção das candidaturas presidenciais, com inteligência, blindados, equipes antibomba e sistemas antidrone. O Estado não está diante de uma ameaça imaginária nem desarmado diante dela: está reconhecendo vulnerabilidades e preparando capacidade de resposta.

A disputa política, porém, já mostrou como uma acusação criminal pode ser convertida em linguagem eleitoral. Em agosto, o TSE determinou, por cinco votos a dois, a retirada de um vídeo publicado por Flávio Bolsonaro que associava Lula ao PCC e ao Comando Vermelho. Meses antes, a própria Corte havia determinado a remoção de publicações que vinculavam Flávio Bolsonaro a facções sem apresentar dados concretos que sustentassem a imputação. A direção política da acusação muda; o mecanismo permanece. Crime organizado tornou-se material de combate eleitoral, e a Justiça já precisou intervir quando vínculos gravíssimos foram apresentados sem comprovação suficiente. Por isso, se uma grande violência ocorrer agora, ela não surgirá num vazio interpretativo. Encontrará um ambiente no qual facção, terrorismo, segurança e poder já estão sendo disputados antes mesmo de qualquer novo fato existir.

Entre um ato de violência e a descoberta de sua autoria existe um território perigoso: o tempo. Uma explosão pode ser registrada em segundos, um corpo identificado em minutos, um vídeo publicado quase instantaneamente. A investigação, porém, obedece a outra velocidade. Precisa preservar vestígios, verificar imagens, ouvir testemunhas, reconstruir deslocamentos, confrontar inteligência e distinguir autoria de aparência. É nesse intervalo que se abre a janela de atribuição. Antes que o Estado saiba, alguém pode afirmar que sabe. E, numa eleição, essa diferença de tempo pode valer poder.

A manipulação mais eficiente nem sequer precisa falsificar o acontecimento. O tiro pode ser verdadeiro, os mortos podem ser reais, a facção pode existir e as imagens podem ser autênticas. A manipulação começa quando elementos verdadeiros são organizados para sustentar uma conclusão que as provas ainda não autorizam. Um vídeo sem origem vira evidência; uma suspeita policial vira autoria; uma fonte de inteligência vira certeza; uma classificação estrangeira de terrorismo substitui a investigação brasileira; políticos e influenciadores repetem a versão até que a hipótese adquira densidade social de fato. Quando a correção chega, horas ou dias depois, ela disputa espaço com uma realidade política que já foi produzida.

É por isso que o ponto mais vulnerável de uma democracia sob choque não está apenas na fronteira, no quartel, na delegacia ou na urna. Está na passagem entre o acontecimento e sua interpretação pública. Quem conseguir ocupar esse intervalo pode não controlar o fato, mas pode tentar controlar seu significado. Esse é o risco concreto das próximas semanas: não uma violência encomendada que possamos demonstrar, mas a conversão de uma violência de autoria incerta em sentença eleitoral antes que o país tenha condições de estabelecer o que realmente ocorreu.

O gatilho não precisa ter a forma de um atentado espetacular. Pode ser uma chacina, o assassinato de uma autoridade, um ataque contra infraestrutura, uma ação de facção, um confronto na fronteira ou outro episódio armado cuja origem não seja imediatamente conhecida. O perigo político nasce menos da natureza do fato do que da velocidade com que alguém tente lhe atribuir autoria, intenção e significado nacional. Um evento local pode atravessar o país em minutos se conseguir ser enquadrado como terrorismo, descontrole territorial, incapacidade do governo ou ameaça à segurança nacional.

A Amazônia merece atenção particular porque, justamente na reta final da campanha, haverá movimentação militar brasileira real e programada. A Operação Atlas prevê deslocamentos estratégicos para a região entre o fim de setembro e o início de outubro, com tropas, aeronaves, embarcações e equipamentos em circulação poucos dias antes do primeiro turno. Não há qualquer indício de irregularidade nisso. O risco está no uso político de imagens verdadeiras retiradas de contexto. Um vídeo autêntico pode carregar uma legenda falsa; um exercício regular pode ser apresentado como resposta emergencial a uma crise inexistente; uma movimentação prevista há meses pode ser transformada em sinal de ruptura. Hoje, manipular uma imagem nem sempre exige fabricá-la. Basta falsificar seu contexto.

É por isso que a vigilância precisa ultrapassar a pergunta sobre onde poderia ocorrer uma violência. O ponto decisivo será observar como o fato entra na esfera pública, quem fornece a primeira versão, que evidência sustenta a acusação e qual vocabulário aparece antes da investigação. Se “PCC”, “Comando Vermelho”, “terrorismo”, “fronteira”, “intervenção” ou “colapso da segurança” surgirem antes de uma cadeia mínima de prova, o país deverá tratar a velocidade da acusação como parte do próprio acontecimento. Em uma eleição apertada, a crise não começa apenas quando há violência. Pode começar quando alguém tenta transformar incerteza em certeza política.

Se um episódio grave ocorrer nas próximas semanas, o Estado brasileiro terá de agir em duas frentes ao mesmo tempo: conter a violência e impedir que a incerteza seja capturada politicamente. Isso exige uma disciplina simples e dura. Suspeita não pode ser anunciada como autoria. Inteligência estrangeira não pode substituir investigação brasileira. Classificação terrorista não pode funcionar como atalho para atribuir responsabilidade. Imagem sem origem não é evidência. Vídeo de tropa, aeronave ou operação precisa ser confrontado com cronologia, localização e contexto antes de produzir consequência política. E nenhuma autoridade deveria disputar velocidade com as redes sacrificando a qualidade da prova.

A resposta precisa ser rápida, mas não precipitada. Polícia Federal, inteligência, Defesa, Justiça Eleitoral e governo devem preservar cadeia de custódia, registrar versões divergentes, identificar quem atribuiu primeiro a autoria e tornar público, sempre que possível, o grau real de certeza de cada informação. Em um choque eleitoral, transparência não significa revelar investigação sensível. Significa qualificar o que é provisório, explicitar o que está confirmado e impedir que hipótese seja apresentada como conclusão.

Isso é soberania. Não apenas controlar fronteiras, território ou espaço aéreo, mas conservar a capacidade de estabelecer a realidade por meios próprios, sob regras próprias e com evidências que possam ser auditadas. Um país que aceita de fora, das redes ou da disputa eleitoral a autoria pronta de um ato de violência entrega parte de sua capacidade de decisão antes mesmo de compreender o que ocorreu. Nas semanas que restam até o voto, proteger a democracia significa também proteger o processo que transforma vestígio em prova, suspeita em hipótese e hipótese, somente quando sustentada pelos fatos, em responsabilidade.

Nas próximas semanas, o Brasil poderá atravessar a eleição sem que nada excepcional aconteça. Esse é, até aqui, o cenário mais compatível com as evidências disponíveis. Mas responsabilidade democrática não consiste em apostar na ausência de crise. Consiste em saber como reagir se ela vier.

Se houver sangue, a obrigação imediata será proteger vidas, preservar o Estado e encontrar os responsáveis. Não oferecer culpados para satisfazer a velocidade da política. Não aceitar que a primeira versão se transforme em sentença. Não permitir que a urgência eleitoral encurte o caminho entre suspeita e prova.

Uma democracia madura precisa suportar a frase mais difícil em momentos de choque: ainda não sabemos. Porque, quando a violência entra em cena, a verdade também passa a ser território disputado. E entregar a autoria antes das evidências é entregar poder antes de compreender quem o está exercendo.

 

Fonte: Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

 

Reflexões homeopáticas sobre a gravidade que perpassa a República

Zé Dirceu vem defendendo publicamente a necessidade de reformas nos três Poderes da República e chega a falar em uma espécie de autorreforma institucional.

No entanto, mudanças dessa dimensão dificilmente poderiam ser realizadas de forma profunda sem a convocação de uma nova Assembleia Constituinte, caso contrário, seria uma reforma das elites, sem participação da sociedade civil.

Só o próximo Congresso Nacional poderia realizar um plebiscito para que o poder popular emane sua vontade para a convocação de uma Constituinte. Contudo, não há dúvida de que o país necessita discutir reformas estruturais em seu ordenamento jurídico e político.

Mas a conjuntura atual, marcada por uma polarização extremada e pelo fortalecimento de forças antidemocráticas, não parece ser um ambiente acolhedor para a construção de um novo Poder Constituinte.

O Brasil precisa avançar estruturalmente, mas também precisa criar diques de proteção à sanha da extrema-direita do bolsonarismo. Uma eventual reforma institucional não pode ignorar essa realidade.

Antes de abrir um processo constituinte, é necessário refletir sobre quais forças políticas estarão em condições de conduzi-lo e quais garantias existirão para que um novo ordenamento represente avanço democrático, e não retrocesso.

O bolsonarismo não se limitou à disputa eleitoral ou à construção de uma corrente política. Ao longo dos últimos anos, consolidou uma cultura de cizânia que passou a contaminar as instituições brasileiras, estimulando conflitos permanentes, desconfianças e antagonismos.

O problema se torna ainda mais grave quando a disputa política deixa de ocorrer apenas entre projetos de país e passa a produzir fissuras dentro das próprias estruturas do Estado, colocando instituições umas contra as outras e transformando divergências em crises.

Por isso, é mister um esforço concentrado de verdadeiros bombeiros políticos, capazes de diminuir as chamas antes que o incêndio institucional se alastre.

É preciso reconstruir pontes, restabelecer canais de diálogo e impedir que a cultura da confrontação permanente avance sobre setores ainda mais sensíveis do Estado, especialmente as Forças Armadas.

Se a lógica da cizânia continuar se aprofundando, o país poderá enfrentar uma crise de consequências ainda mais graves e difíceis de controlar.

E a instabilidade institucional é tudo o que o imperialista Trump quer para justificar ingerência no Brasil.

Quem trabalha para quem na República?

Mensagens e áudios relacionados ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e ao ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça têm atualizações sérias.

Em uma mensagem revelada pela imprensa, o advogado Ciro Rocha Soares aparece ao lado de Mendonça em uma alfaiataria e envia um áudio a Vorcaro: “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”. Demonstrando que o terno tenha, quiçá, sido pago pelo banqueiro ou pelo advogado, mas revelou uma busca para aproximar o banqueiro do ministro da Suprema Corte.

Segundo mensagens e áudios revelados pela imprensa, Ciro Rocha Soares e o deputado Cezinha de Madureira participaram da articulação para aproximar Daniel Vorcaro de André Mendonça.

O ministro confirmou ter recebido o banqueiro uma única vez, em março de 2025, em reunião realizada em São Paulo. A reunião ocorreu no Instituto Iter, instituição fundada por Mendonça, e durou cerca de duas horas.

O Supremo Tribunal Federal não é uma associação privada de homens poderosos. Seus ministros exercem funções que atingem diretamente a vida política, econômica e social do país. Por isso, as relações que mantêm com banqueiros, empresários, advogados e intermediários precisam estar submetidas ao mais alto padrão de transparência e prudência.

André Mendonça tem sido um subversivo anárquico do Judiciário. De aparência colorida, com seu terno associado à polêmica envolvendo Vorcaro, a peruquinha cuidadosamente ajustada e uma voz mansa, quase infantil, constrói a imagem de alguém aparentemente inofensivo.

Mas, por trás da aparência dócil, estaria uma serpente capaz de paralisar e corroer o funcionamento harmonioso do sistema republicano.

A República brasileira parece atravessar um daqueles momentos em que as instituições continuam de pé, mas seus alicerces começam a ranger. André Mendonça é apresentado como uma espécie de cobra-coral da República: de terno impecável, voz mansa e comportamento aparentemente inofensivo, mas portadora de um veneno político capaz de paralisar o funcionamento harmonioso do sistema republicano.

Na Suprema Corte, o conflito entre Alexandre de Moraes e André Mendonça parece ter assumido proporções de protagonismo, enquanto outros ministros, como Flávio Dino e Cristiano Zanin, permanecem mais apagados no debate público.

O problema, contudo, aparece na transformação das divergências institucionais em disputas cada vez mais personalizadas.

Também chama atenção a crescente promiscuidade entre setores do Judiciário e grandes interesses econômicos. A proximidade entre autoridades públicas e banqueiros, especialmente quando surgem suspeitas ou questionamentos sobre benefícios, relações privadas e favores, representa um dos piores sinais para uma República.

Seria preciso questionar como determinados símbolos de status e poder — um terninho, por exemplo — podem se transformar em instrumentos de sedução e vaidade para os narcisos do Judiciário e da polícia institucional.

Mais grave ainda é a possibilidade de normalização dessas relações. Quando a sociedade passa a tratar suspeitas de corrupção e conflitos de interesse como algo corriqueiro, a degradação institucional deixa de causar escândalo e passa a ser incorporada à rotina política.

Esse ambiente de caos institucional é particularmente perigoso porque interessa às forças que apostam no enfraquecimento da República. Os bolsonaristas, seja por meio de André Mendonça, seja através da atuação política de Flávio Bolsonaro, alimentam uma estratégia de conflito permanente que fragiliza as instituições brasileiras.

Uma República dividida, com seus Poderes em permanente confronto e suas autoridades submetidas a disputas públicas, oferece um cenário favorável à exploração política externa. Um prato feito para figuras como Donald Trump e para aqueles que procuram transformar as fragilidades internas do Brasil em instrumentos de pressão e interferência.

Diante desse quadro, volta à discussão a necessidade de uma profunda reforma política e institucional. Dependendo da configuração do próximo Congresso Nacional, poderá ser viável — ou não — a convocação, via plebiscito, de uma Constituinte exclusiva, com competências delimitadas para tratar especificamente das reformas política e judiciária.

Uma iniciativa dessa natureza exigiria, entretanto, extrema cautela.

Uma Constituinte poderia representar uma oportunidade de fortalecimento da democracia e de aperfeiçoamento da República, mas, em uma conjuntura dominada pela extrema-direita e pela radicalização política, também poderia abrir espaço para retrocessos.

Contudo, do jeito que está, tende a piorar.

¨      A fabricação do eleitor: algoritmos, democracia, marketing e poder ideológico. Por Alexandre Machado Rosa

A democracia liberal, segundo seus ideólogos e defensores, fundamenta-se formalmente na representação política, no sufrágio universal e na livre circulação das ideias. Entretanto, a introdução das técnicas de publicidade nas campanhas eleitorais transformou e aprisionou profundamente o funcionamento desse modelo.

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Sob a lógica do mercado, a política passou a apresentar os candidatos como espécies de produtos ao eleitorado. O eleitor comum passou a ser tratado como um consumidor de imagens, de slogans e de narrativas emocionais. O fascismo utilizou-se muito da estética e da comunicação quando ascendeu na Europa.

Técnicas como a simplificação e a repetição, como o uso de mensagens curtas, repetidas à exaustão e focadas em inimigos comuns (os judeus no nazismo e os comunistas nos EUA), parecem ter resistido mesmo após a derrota do nazifascismo na Segunda Guerra Mundial.

O resgate do culto à personalidade, com candidatos retratados como líderes salvadores, fortes e incorruptíveis, permanece atual, como nos casos de Trump e Bolsonaro, para citar apenas dois personagens contemporâneos.
Mas foi, efetivamente, a partir da campanha presidencial de Dwight Eisenhower, em 1952, que as eleições se converteram em produto publicitário. Podemos afirmar que a metamorfose das campanhas políticas surgiu com o advento da TV, na década de 1950. Nos EUA, uma grande agência de publicidade, a BBDO (Batten, Barton, Durstine & Osborn), produziu pequenos anúncios televisivos nos quais o candidato respondia a perguntas cuidadosamente selecionadas. A complexidade dos problemas sociais começava a ser reduzida a mensagens de poucos segundos, esvaziando o debate público e transformando os temas de interesse social em assunto publicitário.

Desde então, o debate político foi progressivamente substituído por uma estética elaborada segundo os cânones do marketing. Projetos de sociedade cederam espaço aos soundbites, frases concebidas para provocar reações imediatas. Com as redes sociais, essa lógica foi levada ao extremo. Com o uso dos algoritmos, passou-se ao cruzamento de dados, possibilitando a individualização de mensagens conforme os medos, os preconceitos e as vulnerabilidades de cada parcela do eleitorado.

Expressões como “bandido bom é bandido morto” e mentiras grotescas como “kit gay” e “mamadeira de piroca” representam o estágio mais degradado desse processo. Não procuram explicar a realidade nem apresentar soluções. Sua função é bloquear a reflexão, produzir pânico moral, fabricar inimigos e afastar o debate das estruturas responsáveis pela desigualdade social. São técnicas criadas pelo nazifascismo e incorporadas ao marketing político.

Contudo, o problema não está apenas nas técnicas de marketing. No livro O poder da ideologia, István Mészáros (1930–2017) demonstra que nenhuma interpretação da sociedade nasce fora da história e dos conflitos sociais. A criação do mito da neutralidade absoluta procura ocultar que toda concepção de mundo está relacionada, direta ou indiretamente, à conservação ou à transformação da ordem existente. Segundo seus ideólogos, as agências de publicidade seriam apenas um modo de profissionalizar a comunicação desses princípios.

Vale lembrar que a ideologia não é uma mentira deliberada. É uma forma socialmente produzida de compreender o mundo. A ideologia dominante apresenta os interesses particulares das classes que controlam a economia como se fossem os interesses universais da sociedade. A concentração da riqueza aparece como resultado do mérito; a pobreza, como falta de esforço; a retirada de direitos, como modernização; a privatização, como eficiência; e a repressão, como segurança.

É nesse terreno que atua o marketing político. Candidatos com históricos de corrupção, autoritarismo e desmandos podem ser vendidos como defensores da moralidade ou salvadores da pátria, desde que não ameacem os interesses dos setores economicamente dominantes. Muda-se a embalagem, preserva-se o conteúdo.

A chamada indústria das pesquisas reforça esse esvaziamento. Muitos dirigentes deixaram de disputar a consciência social por meio de convicções e programas e passaram a dizer apenas aquilo que as sondagens indicam que o eleitor deseja ouvir. Essa “sondocracia” pode determinar slogans, gestos e temas de campanha, mas raramente permite questionar a propriedade privada, a concentração da riqueza ou o poder das grandes plataformas tecnológicas.

Para Mészáros, portanto, a questão decisiva é a emancipação humana. Se a ideologia dominante naturaliza a desigualdade e apresenta o capitalismo como o horizonte definitivo da humanidade, uma perspectiva emancipatória deve revelar que essas relações foram historicamente construídas e podem ser superadas.

A verdadeira emancipação não se limita à liberdade formal de escolher candidatos periodicamente. Exige condições materiais para que os indivíduos participem das decisões que determinam suas vidas: acesso ao conhecimento, segurança econômica, tempo livre e controle democrático sobre os meios de produção e comunicação.

A crise da democracia não decorre apenas da existência de notícias falsas, publicitários ou algoritmos. Ela nasce da contradição entre a igualdade formal dos cidadãos e a profunda desigualdade material da sociedade. Enquanto o poder econômico estiver concentrado, também estarão concentradas as condições para produzir informações, financiar campanhas e determinar os limites do debate público.

A disputa ideológica é, em última instância, uma disputa sobre o futuro. De um lado, uma ideologia que transforma a desigualdade em natureza e o capitalismo em destino. De outro, uma perspectiva emancipatória que afirma que a liberdade humana somente poderá existir plenamente quando os seres humanos deixarem de ser governados pelas forças econômicas que eles próprios criaram.

 

Fonte: Por Francisco Calmon, em Brasil 247

 

 

A utopia é uma promessa pela qual vale a pena lutar

A perturbadora impossibilidade de uma sociedade que corresponda aos nossos ideais pode ser dolorosa quando confrontada com as sociedades reais que estão tão aquém deles. É por isso que o sonho da utopia, ou do “lugar nenhum”, tem perturbado o sono de muitos pensadores por tanto tempo que pode parecer um pesadelo. Diante da hipocrisia de um mundo onde a crueldade muitas vezes parece ser o objetivo, que direito temos de supor que as coisas poderiam ser melhores? Como podem pessoas supostamente sábias e inteligentes sonhar com a utopia quando a sabedoria e a inteligência apontam para a sua impossibilidade?

O novo livro de David Albertson e Jason Blakely, Utopia for our century: A manifesto of hope, apresenta uma análise histórica ponderada sobre as almas ousadas que sonharam com um mundo melhor. Mas, mais do que uma narrativa histórica, busca refletir sobre o valor político e ideológico do pensamento utópico e contestar a ideia de que ele não passa de mera ilusão. Albertson e Blakely encontram muitos motivos para admirar os autores utópicos, considerando-os “sonhadores virtuosos, que viveram realidades tão sombrias e assustadoras quanto as nossas, mas o fizeram com uma esperança inabalável”. Em sua melhor forma, os utopistas enfatizaram a esperança sem garantias — uma posição sábia que traça um caminho intermediário entre o otimismo cego e a inércia resignada do falso “realismo”.

Seu arquétipo é Thomas More, cuja obra Utopia, publicada no século XVI, batizou o conceito. Para Albertson e Blakely, More nos oferece um vislumbre da personalidade dos utopistas. Eles não são os otimistas ingênuos das caricaturas habituais.

Longe de ser um pensador especulativo e leviano, More é um dos poucos filósofos importantes a ter tido uma carreira política genuinamente pública, e durante um período singularmente desafiador. Ele serviu como Lorde Chanceler da Inglaterra sob o reinado do amoral e cruel Henrique VIII. Este foi um período tumultuoso para o país. Henrique rompeu com Roma e se declarou chefe da Igreja da Inglaterra para anular o próprio casamento e se casar com outra mulher. Isso gerou forte reação, que Henrique enfrentou com violenta repressão. Essa repressão acabou por atingir More, um católico devoto, que foi julgado por se recusar a reconhecer a supremacia religiosa de Henrique. More manteve-se firme em suas convicções, o que levou à sua execução em 1535.

Albertson e Blakely compreendem que a imersão trágica de More na realpolitik é parte do que inspirou sua conversão ao utopismo. Sua irônica designação de “utopia” como “lugar nenhum” não visa apenas demonstrar a natureza especulativa de seu pensamento. More está chamando a atenção para o fato de que nenhum lugar na Terra chega perto de incorporar a justiça, embora muitas elites governantes, que detêm o poder de mudar as coisas, afirmem se importar profundamente com ela. Em uma passagem memorável, More descreve um diálogo entre Raphael Hythloday — o viajante que chega em Utopia — e um advogado não identificado. O advogado afirma estar preocupado com a lei e a ordem e argumenta que a única maneira de preservá-las é por meio de punições brutais.

Hythloday observa que a Utopia é um lugar muito mais seguro, em grande parte porque é uma sociedade muito menos desigual, onde a propriedade é amplamente compartilhada e há poucos pobres. Além disso, suas punições para crimes como roubo são muito mais brandas do que na Inglaterra, expressando ainda mais seus compromissos humanistas. Com um humor mordaz, Hythloday observa que realistas como o advogado aprisionam os pobres em uma situação muito difícil, “primeiro transformando-os em ladrões e depois punindo-os por isso”. Em vez de implementar reformas para alcançar a paz e a justiça que o advogado alega desejar e em que acredita, ele persiste obstinadamente na ilusão de que “a Inglaterra poderia resolver os problemas da pobreza encarcerando e executando pessoas (infelizmente, o estratagema ainda funciona perfeitamente)”.

Nesse sentido, o utopismo não é uma fantasia sobre mundos que jamais poderiam existir, mas um espelho condenatório que reflete o quão pouco vivemos de acordo com os princípios nos quais dizemos acreditar. Além disso, ao falharem em se comprometer com a justiça em nome do “realismo”, as elites governantes são responsáveis ​​por produzir a própria corrupção que alegam ser o maior obstáculo para uma vida melhor. More queria expor como esse apego ideológico ao status quo, com todas as suas falhas, era um dos principais obstáculos para a melhoria da situação. “A Utopia de More submete gradualmente seus contemporâneos europeus ao escrutínio do ‘e se’ e ao seu poder revelador”, como afirmam Albertson e Blakely. “Atitudes comuns de sua época em relação ao encarceramento, à propriedade privada, à educação e à assistência médica são expostas uma a uma como inviáveis, insustentáveis ​​e, de fato, irrealistas à luz das conquistas utópicas.

No entanto, em apenas alguns séculos, tudo isso mudou: “Quantas políticas autoevidentes da Londres de More perduraram até o nosso século, seja a pena capital para roubo ou o direito divino dos reis? A resposta é clara: elas desapareceram.”

<><> Pós-modernidade; ou, a lógica cultural das utopias monstruosas

Contrariando nossa reputação de idealismo, muitos dos pensadores de esquerda mais brilhantes expressaram profundo ceticismo em relação ao utopismo. Isso, é claro, começou com Karl Marx, que notoriamente repreendeu os socialistas com quem discordava, depreciando-os como “utópicos”. Em seus momentos mais incisivos, Marx ridicularizou o utopismo, comparando-o à escrita de livros de receitas para as cozinhas do futuro. Tais projetos não passavam de uma especulação ahistórica (embora o próprio Marx a praticasse com frequência). Seguindo seus passos, muitos marxistas ortodoxos insistem que o socialismo deve ser “científico”, ou não é socialismo de forma alguma.

Marxistas mais ponderados adotam uma abordagem diferente. Em sua obra seminal “Arqueologias do futuro”, o saudoso e genial Fredric Jameson observa como a ficção científica utópica frequentemente serviu como um gênero construtivo para que progressistas imaginassem futuros melhores, visando concretizá-los. O gênero, naturalmente, teve início com o próprio More, a quem Jameson descreve como um satirista progressista do poder, oferecendo um “comentário ponto a ponto sobre os assuntos e a situação da Inglaterra”. A literatura utópica prosseguiu em diversas formas, com autores que vão de Edward Bellamy a Ursula K. Le Guin utilizando a ficção científica como meio tanto de criticar o status quo quanto de formular hipóteses sobre como um futuro melhor poderia ser.

Contudo, Jameson expressa cautela quanto ao poder transformador do gênero utópico e sugere que ele pode ter se esgotado no pós-moderno século XXI. Ele observa como, hoje, o gênero utópico praticamente desapareceu, dando lugar a representações sombrias do futuro, onde é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Em um sinal revelador, mesmo obras que começam apresentando utopias geralmente terminam revelando que elas não são tudo aquilo que aparentam ser. O mundo aparentemente idílico e cor-de-rosa de Barbie (2023) acaba se mostrando dilacerado por um medo existencial reprimido e animosidades de gênero. As séries mais recentes do universo Star Trek, como Picard e Discovery, pegam o futuro cosmopolita e brilhante prometido pela Federação Unida de Planetas de Gene Roddenberry e mostram que ele dependeu secretamente de manipulação dissimulada, exploração dos marginalizados e muito mais.

“Comparado ao capitalismo meritocrático, até mesmo o comunista mais otimista é um realista lúcido.”

Contrariando Jameson, Albertson e Blakely consideram o gênero utópico muito vivo, mas não saudável. Este é um problema grave, visto que a necessidade de utopias “construtivas” é urgente. Albertson e Blakely são muito críticos do populismo de direita e dos estragos que ele causa, mas argumentam que grande parte disso decorre das próprias aspirações utópicas da direita (frequentemente negadas). Estas incluem o sonho nacionalista de uma etnia unificada, que Albertson e Blakely descrevem como um “tipo peculiar de utopia fracassada”. Os nacionalistas evocam um “espírito imaginado da nação que cria uma ilusão de unidade cultural” — um espírito que pretende se basear na história real, mesmo enquanto constantemente minimizam ou resistem militantemente a fatos históricos que não se encaixam nos mitos patrióticos que desejam propagar. Albertson e Blakely observam, com ironia, que os nacionalistas precisam constantemente “sustentar a noção obviamente falsa de que o espírito nacional imaginário permanece puro, livre de influências de culturas sobrepostas, constituintes ou vizinhas, e que nunca muda com o tempo”.

Eles também enxergam muitas das mesmas fantasias em ação na “esperança utópica mais febril” da direita: que um dia possamos alcançar a “visão mais imaculada, geométrica e sem atritos do ‘livre mercado’. Gerações inteiras de estadunidenses viveram como se o mercado fosse a única utopia tolerável”. Albertson e Blakely são extremamente críticos dessa visão, e com razão, chamando-a de “utopia monstruosa” por exigir pouco das pessoas e dar menos ainda em troca, enquanto o sistema monetário é tratado como uma “divindade menor”.

Eu iria ainda mais longe do que Albertson e Blakely e sugeriria que a concepção meritocrática do capitalismo, de que cada um será recompensado de acordo com o que merece, não é apenas uma visão utópica ruim — é a visão utópica mais fantasiosa já concebida. Os filósofos antigos tiveram a sabedoria de aceitar que somente a mão visível e onisciente de Deus poderia recompensar as pessoas com base no que elas mereciam, e mesmo assim, apenas em um reino perfeito além deste. Somente os conservadores estadunidenses imaginaram um mundo tão fantástico que a mão invisível e inconsciente do mercado recompensaria as pessoas com base no que elas mereciam, e nesta vida. Comparado ao capitalismo meritocrático, até mesmo o comunista mais otimista é um realista lúcido, já que apenas imaginou ser possível dar às pessoas o que elas precisavam, mantendo em aberto a questão do que elas mereciam.

<><> A utopia é possível hoje em dia?

Em contraste, Albertson e Blakely demonstram maior simpatia pelas utopias de esquerda, mas acreditam que estas permanecem limitadas por certas restrições fundamentais. Eles expressam certa simpatia pelo liberalismo, ao mesmo tempo que destacam como o “liberalismo do pós-guerra estagnou” devido a uma regressão para o “libertarianismo de direita, por vezes chamado de neoliberalismo”. Essa regressão para o neoliberalismo “traiu os ideais originais da tradição [liberal]” de alcançar liberdade, igualdade e solidariedade para todos. Albertson e Blakely também criticam a tradição marxista por não reconhecer que as verdadeiras revoluções nunca começam na esfera econômica. Em vez disso, precisamos de uma transição de valores, visando padrões éticos mais elevados. Eles não especificam o que isso implicaria em detalhes, mas suas referências favoráveis ​​a humanistas e cristãos de esquerda como o próprio More, Martin Luther King Jr. e o falecido Alasdair MacIntyre fornecem muitas pistas.

O que torna a posição de Albertson e Blakely interessante é a extensão em que defendem uma visão utópica que seja simultaneamente liberal, anticapitalista e profundamente espiritual. É evidente que essa é uma combinação difícil de alcançar — embora se possa questionar a utilidade de uma visão utópica sem ambição. Infelizmente, os autores não se esforçam muito para detalhar isso, mesmo apresentando uma série de exemplos comoventes nas vidas de More e King. Meus próprios instintos marxistas se manifestam aqui, levando-me a suspeitar que atos individuais de benevolência simplesmente não serão suficientes. A ausência de uma teoria clara do poder — algo que complemente as veementes condenações da injustiça e a crítica às amarras ideológicas — representa uma limitação real à visão apresentada.

Apesar de tudo isso, Albertson e Blakely devem ser elogiados pela força e ousadia de sua perspectiva, até mesmo por sua audácia. Sem dúvida, eles estão certos ao afirmar que uma espécie de utopismo pode ser mais realista do que a adesão irrefletida a um status quo que claramente não está funcionando. Afinal, fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes não é sinal de sabedoria. É insanidade.

 

Fonte: Por Matt McManus - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

 

4 exercícios que ajudam a fortalecer os punhos, uma das articulações mais prejudicadas pela vida moderna

A vida moderna está prejudicando nossos punhos — a articulação entre o antebraço e a mão que às vezes é chamada de pulso. No meu caso, começou com uma dor leve.

Ao longo de um verão, ela progrediu rapidamente até se transformar em uma dor penetrante no braço, que se irradiava pela minha mão esquerda sempre que eu rebatia uma bola de tênis ou até quando tentava abrir uma porta.

Eu tinha então 18 anos e disputar competições de tênis era uma parte importante da minha vida. Mas eu havia acabado de sofrer uma lesão que me manteria afastado do esporte por vários anos.

Agora, quase duas décadas depois, a lesão pode aumentar meu risco de desenvolver artrose de punho, um problema comum a partir da meia-idade.

Nossos punhos são extraordinariamente adaptáveis. Eles têm a força necessária para nos permitir levantar objetos pesados, flexibilidade para podermos rebater bolas com raquetes e precisão para realizar tarefas como pintar.

De digitar até segurar uma xícara de café, ter punhos funcionais é fundamental para a vida cotidiana. O problema é que eles ficam lesionados com facilidade.

Mas podemos fazer algo a respeito e é importante começar o quanto antes.

Aqui explicamos como proteger os punhos para você poder continuar desfrutando deles por muitos anos.

<><> Equilíbrio frágil

Podemos pensar no punho como sendo uma única articulação. Mas, na verdade, trata-se de um complexo formado por diversas articulações menores.

Elas são formadas por oito ossos pequenos, conhecidos como ossos do carpo, os dois ossos longos do antebraço e as bases dos cinco ossos do metacarpo, na palma da mão.

"Cada ligamento e cada osso do punho que o conecta aos ossos do antebraço encontra-se realmente em equilíbrio muito preciso", explica o professor Andrew Abadeer, da Universidade do Sul da Flórida, nos Estados Unidos. "Quando este equilíbrio se altera, começa a se desenvolver a artrite de punho."

As lesões, aliadas aos efeitos do envelhecimento, podem alterar esse frágil equilíbrio. E prevenir a artrite, por si só, já é uma razão suficiente para manter a saúde do punho.

Existem muitos tipos diferentes da doença. Mas ela geralmente se apresenta em uma dentre três formas: artrite reumatoide, osteoartrite ou atrite pós-traumática.

As duas últimas ocorrem quando a cartilagem que amortiza os pequenos ossos do punho é lesionada ou os ossos ficam desalinhados.

Ambas estão relacionadas aos efeitos de longo prazo das lesões dos ligamentos e dos ossos do punho, ou a inflamações persistentes, devido ao uso excessivo em tarefas manuais repetitivas.

A pesquisadora Sara Larsson, da Universidade de Lund, na Suécia, é especializada na reabilitação dos punhos. Ela explica que este traumatismo pode ter causas simples, como um movimento de torção repetitivo ou uma queda com a mão estendida.

"Observo muitas pessoas que sofreram lesões quando jovens, aparentemente sem maiores complicações, e desenvolvem problemas 20 anos depois", ela conta.

A artrite do punho, além de ser muito dolorosa, também dificulta tarefas cotidianas, como se vestir e cortar alimentos.

Nos Estados Unidos, calcula-se que esta condição atinja uma a cada sete pessoas. E a sobrecarga psicológica associada à artrite do punho já foi relacionada à depressão.

Abadeer descreve o punho como uma "articulação sentinela", que pode refletir os primeiros sinais de deterioração da saúde no restante do corpo.

Cerca de metade dos pacientes que desenvolvem artrite reumatoide sente os primeiros efeitos da doença no punho, antes que ela se estenda às demais articulações.

O cérebro dedica uma grande região do córtex, conhecida como homúnculo cortical, ao mapeamento das mãos, do punho e dos dedos. Por isso, a força de aperto pode refletir a estrutura cerebral e a saúde cognitiva de uma pessoa.

Por outro lado, aqueles que chegam à casa dos 60 anos com os punhos em melhores condições (normalmente avaliadas pela força de aperto) costumam apresentar melhor estado de saúde geral.

Estas pessoas, além de serem menos frágeis e menos propensas a quedas, fraturas ósseas e osteoporose, uma condição debilitadora dos ossos, também têm menos probabilidade de perder sua independência em idade avançada.

<><> Prepare os seus punhos

Antes de começar, o cirurgião ortopédico Jaehon Kim, da faculdade de Medicina Icahn de Mount Sinai em Nova York, nos Estados Unidos, recomenda prestar atenção à alimentação.

Alimentos ricos em cálcio e outros minerais, como produtos lácteos e peixes pequenos com espinhas (as sardinhas são uma boa opção), podem ajudar a reduzir o desenvolvimento da osteoporose.

Além disso, embora o peso não pareça estar diretamente relacionado à saúde do punho, reduzir o excesso de gordura corporal pode melhorar a biomecânica geral da articulação.

De forma geral, Larsson afirma que a melhor medida preventiva é realizar exercícios simples em casa, o que pode tornar o punho mais resiliente e evitar problemas a longo prazo.

Para cada um dos exercícios descritos a seguir, ela recomenda realizar três séries de 10 repetições (ou seja, realizar o exercício 10 vezes, descansar, repetir 10 vezes, descansar e repetir mais 10 vezes), três ou quatro vezes por semana.

Se você sofrer de alguma condição ou lesão pré-existente, é importante consultar um médico antes de começar um novo programa de exercícios. E, se sentir dor em algum momento, pare e procure assistência médica.

<><> 1. Fortaleça os músculos dos ombros

Os principais músculos dos ombros são conhecidos como deltoides.

Aparentemente, eles não têm relação com os punhos. Mas Larsson afirma que fortalecer os grupos musculares de todo o braço pode beneficiar imensamente o punho, já que eles trabalham em conjunto, como uma cadeia.

"Não usamos apenas a mão, mas todo o braço", explica Larsson.

"Se você tiver os ombros frágeis, irá colocar mais carga sobre o punho. Mas se eles forem fortes, você pode proteger e aliviar essa carga."

Um método fácil de exercitar os músculos dos ombros consiste em simplesmente se colocar de pé com os braços estendidos para os lados, retos ou ligeiramente flexionados.

Levante os braços lentamente em direção ao teto e, depois, abaixe-os também lentamente. Repita este exercício por 10 vezes.

<><> 2. Aumente sua força de aperto

Os exercícios de aumento da força de aperto podem promover a estabilidade do punho, condicionando os grupos musculares do antebraço, conhecidos como flexores e extensores. Eles se conectam aos dedos por meio da articulação do punho, permitindo que você segure objetos.

Estudos anteriores demonstraram que estes exercícios também podem ajudar pessoas que sofrem de dores nos punhos.

"Todos os músculos do antebraço são conectados à mão nos dois lados do punho, por meio de um sistema de polias", explica Abadeer.

Para trabalhar estes músculos, o ideal é usar uma bola de terapia das mãos ou massa terapêutica, um material à base de silicone que pode ser apertado com as mãos. Mas uma bola de tênis será suficiente.

Segure a bola ou massa na palma da mão e aperte-a com a maior força possível, por cinco a 10 segundos. Solte, relaxe a mão por mais cinco segundos e volte a apertar.

Repita o exercício 10 vezes em cada mão.

<><> 3. Carregue e flexione suavemente o punho

Segundo Kim, outra forma importante de reduzir a tensão nos tendões e nas articulações do punho são os exercícios de flexão e extensão, empregando algum tipo de peso ou resistência leve como carga.

Este exercício também pode fortalecer os ossos do punho, o que poderá trazer benefícios para a saúde a longo prazo, especialmente para prevenir um tipo de osteoporose conhecido como osteopenia por desuso.

"Quando você aplica carga, estes ossos se fortalecem e começam a se remodelar, aumentando a resistência da parede óssea", explica Abadeer.

Para realizar este exercício, sente-se e apoie o antebraço sobre uma mesa com a mão pendente na borda, sustentando um peso pequeno, de 3 a 7 kg.

Para um exercício de flexão, coloque a palma da mão para cima e flexione o punho em direção ao corpo antes de baixá-la. Para um exercício de extensão, coloque a palma da mão para baixo enquanto sustenta o peso e levante a mão em direção ao teto, baixando-a em seguida.

Se você não dispuser de pesos, Larsson sugere utilizar uma faixa de resistência. Fixe uma extremidade da faixa elástica embaixo do pé de uma mesa e segure a outra extremidade sobre o punho, para sentir alguma resistência ao realizar os exercícios.

Repita a flexão e a extensão por 10 vezes.

"Acredito que este exercício pode ser muito benéfico para as articulações do punho, especialmente se você escrever e digitar muito", segundo Kim.

<><> 4. Virar para cima e para baixo

Por fim, existem os movimentos de supinação e pronação. Eles podem aumentar a extensão dos movimentos do punho e sua funcionalidade em geral.

Da mesma forma que os exercícios de flexão e extensão, eles podem ser realizados sobre uma mesa com um pequeno peso ou uma faixa elástica.

Comece com a mão sobre a borda da mesa e o polegar para cima. Gire lentamente o punho, de forma que a palma da mão fique voltada para baixo. Volte à posição inicial e gire em sentido contrário, para que a palma fique voltada para cima. Repita estes movimentos por 10 vezes.

Abadeer afirma que estes exercícios são cada vez mais importantes. Vivemos no que ele descreve como "um mundo pronado", no qual nossas mãos passam muitas horas por dia em uma posição fixa, seja digitando no teclado do computador ou no telefone celular.

Como ocorre com todas as nossas articulações, costumamos imaginar que nossos punho serão sempre fortes e flexíveis.

Mas, quando o meu punho ficou imobilizado por vários meses, percebi que só compreendemos que algo é verdadeiramente importante quando o perdemos.

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Fonte: BBC  Future